Museu Vivo do São Bento | Museu Vivo do São Bento

Museu Vivo do São Bento

Percurso do Museu Vivo do São Bento: usos imaginados, desejados e realizados

(Marlucia Santos de Souza)

 

Os usos pensados para as edificações do Museu Vivo do São Bento foram inspirados pela concepção de uma educação diferenciada das escolas formais. Longe de ser percebida como melhor e sim como outra possibilidade de vir a ser, fora das correntes dos horários fragmentados e rígidos das horas/aula, dos espaços fechados das salas de aulas que muitas vezes nos impedem de ver o mundo, das turmas superlotadas que nos impossibilita de escutar a nossa alma e a do outro.  É um esforço de buscar coletividades mais prazerosas e amorosas. Caminhos trilhados por aqueles que escolheram a liberdade de estar em grupo ou partir, de modelar o tempo para propiciar uma dimensão emancipatória da pessoa.

Espaços sonhados de acolhimento, de escuta, de interação social e ambiental através da construção individual e coletiva em dialógica com a música, o teatro, a poesia, o estudo de campo, as leituras acolhidas, a pesquisa e a produção criativa.  Fios que se tecem no fazer com o outro, na mediação com as heranças ancestrais expressas na cultura material no território, nas marcas corporais, sensoriais e afetivas.

Em cada espaço edificado é possível identificar uma possibilidade oferecida de dialógica com as várias temporalidades históricas, com as diversas linguagens humanas e com as artes de fazer no presente como veremos a seguir:

 

CASA DO ADMINISTRADOR

Construída na década de 50 para abrigar o administrador do Núcleo Colonial São Bento e a sua família. Localizada na entrada da porteira da sede gleba. Lugar de memória do poder político do Ministério da Agricultura até 1961, quando ocorreu a extinção dos núcleos.

Uso atual definido pela FEUDUC – Casa do Pesquisador – sede da Associação de Professores Pesquisadores – APPH-clio e da Pós-graduação da FEUDUC com vistas a integrar as diferentes áreas do conhecimento para ajudar a pensar a Baixada Fluminense.

 

 

TULHA DE CARVÃO

Armazenou parte da produção da Fazenda do Iguaçu. No século XIX, tornou-se tulha de carvão e no século XX, abrigou a Companhia de Malária, alojando os doentes. Posteriormente foi utilizada como abrigo para colonos solteiros e residência.

Uso atual – A edificação foi vendida, reformada preservando-se a sua estrutura original e transformada em sede cultural do Moto-clube Veneno da Cobra. Além da integração dos motociclistas, são realizadas atividades de promoção do rock e de divulgação do modo de vida do motociclista, contribuindo assim, para reduzir o preconceito sofrido por eles.

 

TULHA PRINCIPAL

tulha

Espaço destinado a armazenar a produção da fazenda, foi local reservado para o beneficiamento do leite, garagem e oficina das carruagens e carro. No século XX, tornou-se tulha da produção do núcleo colonial e após a sua extinção abrigou a Fábrica de Manilha da Prefeitura Municipal de Duque de Caxias. Em 2008, foi incorporado pelo Museu Vivo do São Bento para abrigar o Armazém Cultural.

Uso definido – Armazém Cultural com palco externo para grandes espetáculos, palco removível interno e salas para aulas de teatro, sala de cinema e café literário. Haverá ainda espaço para apresentação de exposição contando a História do Núcleo Colonial São Bento e área de convivência.

 

TULHA SECUNDÁRIA

Espaço destinado a armazenar a produção da Fazenda do Iguaçu. No século XX, foi transformado em Posto Médico e em Farmácia de Manipulação do quinina, utilizado no combate a malária. Após a erradicação da malária e extinção do núcleo, tornou-se abrigo para menores em situação de Risco da Prefeitura Municipal de Duque de Caxias (Renascer e Reviver). Em 2008, foi incorporado ao Museu Vivo do São para abrigar o Museu da História da cidade e da Educação de Duque de Caxias.

 

CASA DE VIVENDA DA FAZENDA DO IGUAÇU

Casarão de estilo barroco com vestígios de obras executadas nos séculos XVII e um sobrado erguido no século XVIII e  anexado a capela Nossa Senhora do Rosário dos Homens de Cor com vistas a mantê-la preservada e segura. Em 1920, a fazenda do Iguaçu foi desapropriada dos beneditinos ficando os monges com uma pequena área, o casarão e a capela. O casarão abrigou as cooperativas dos colonos. Posteriormente foi transformado em patronato, sendo ainda construído um prédio anexo que abriga atualmente a Casa de Retiro São Francisco e a PUC Rio. O prédio abriga ainda o Programa de Jovens Agentes do Patrimônio e o Grupo de Mulheres Artesãs em parceria com o CRPH.

Uso definido pela Diocese de Duque de Caxias, pelo Centro de Referência Patrimonial e Histórico do Município de Duque de Caxias e seus parceiros – espaço museal para contar a História da Fazenda do Iguaçu e abrigar as peças barrocas da Diocese e escola de música.

 

ARMAZÉM COMERCIAL DA PRODUÇÃO DOS COLONOS

Espaço reservado para as trocas comerciais realizadas pelas cooperativas dos colonos do Núcleo Colonial São Bento. Na década de 50, foi transformada em escola para os filhos dos colonos recebendo o nome da esposa do administrador, Nísia Vilela. Após e extinção do Núcleo a escola foi municipalizada. Na década de noventa os alunos foram transferidos para um novo prédio e o antigo foi abandonado, tendo desabado parte de seu telhado.

Uso atual – Em 2005, foi cedido para o Centro de Referência Patrimonial e Histórico do Município de Duque de Caxias e do Centro de Pesquisa e de Memória da História da Educação do Município de Duque de Caxias para torna-se uma unidade de educação patrimonial. Em 2008, tornou-se também sede administrativa do Museu Vivo do São Bento, do CRPH, do CEPEMHED e do Arquivo Público Municipal em construção. Funciona ainda na sede um cineclube, aulas de capoeira, reuniões da APA São Bento e o Fórum doa Afetados pela Indústria do Petróleo e Gás.

 

SAMBAQUI SÃO BENTO

Sítio arqueológico dos povos das conchas que habitaram o território por volta de 4.000 A.P. Foi encontrado por uma aluna do Departamento de História da FEUDUC e registrado no IPHAN. O terreno foi comprado simbolicamente através da campanha SOS Sambaqui São Bento. Em 2010, o sítio foi escavando a partir de deliberação do Departamento de Arqueologia do IPHAN, como medida compensatória das obras do Arco Metropolitano, sendo encontrado no local vestígios materiais e esqueletos humanos. Dois esqueletos permaneceram no local.

Uso atual  – Sítio Escola Sambaqui São Bento – as escavações foram realizadas no sentido de manter informações acerca do trabalho do arqueólogo e do cotidiano da vida dos povos das conchas que ali habitaram. Em 2011, a Superintendência Estadual de Museus abriu um edital e o museu concorreu com dois projetos, sendo estes aprovados em dezembro. Em 2012, o dinheiro foi depositado e a sua execução efetivada. Um deles, destinou-se a financiar a construção de uma cobertura provisória do sítio e de uma pequena museografia do sítio. Três terrenos foram desapropriados para escavação, ambientação e abrigar a construção de uma taba nos moldes tupinambá para abrigar obras de arte dos nativos brasileiros, produções literárias sobre os nativos no passado e no presente, um espaço de projeções audio-visuais que permitam a sensibilização para os problemas enfrentados por eles no presente e atos de solidariedade junto aos alunos das escolas.

 

CASA DE FARINHA

Edificação utilizada como casa de farinha da fazenda do Iguaçu. Após a instalação do Núcleo Colonial São Bento, tornou-se abrigo para os colonos solteiros que prontamente construíram ao seu lado um campo de futebol. Aos poucos estes colonos foram se casando e passaram a morar em suas  residências construídas pelo Ministério da Agricultura. Os colonos iniciaram uma luta pela transformação do espaço em Esporte Clube São Bento que se efetivou em 1948. No espaço eram realizadas as festas de casamento, os bailes de carnaval, os eventos sociais, além do futebol e do cinema. Era o único espaço cultural e esportivo dos arredores. Neste campo jogou Garrincha e Roberto Dinamite, que era um dos filhos dos colonos do núcleo.

Uso atual – manutenção do Esporte Clube São Bento. O museu deseja conseguir obter recursos para recuperar o prédio, melhorar a sua infraestrutura e incentivar outras atividades esportivas.

 

CASA DO COLONO

Durante a instalação do Núcleo Colonial São Bento, o Ministério da Agricultura construiu na sede gleba 70 casas de colonos para abrigar os colonos e os funcionários do núcleo. As casas eram padronizadas, não possuíam cercas, foram pintadas de branco e azul, possuíam uma pequena varandinha na frente, uma pequena sala, dois quartos, um banheiro e uma cozinha com fogão á lenha. Depois chegaram o fogão a gás e a geladeira. Quando o núcleo foi extinto os moradores permaneceram nas residências, muitas delas foram compradas do Ministério. Com o passar do tempo e a melhoria das condições de vida de alguns colonos e de seus descendentes, as casas foram sendo modificadas, ampliadas e melhoradas.

Uso atual – As mudanças aceleradas nas edificações familiares provocou a necessidade de preservar pelo menos uma casa do colono para ajudar a contar a história. Iniciou-se em 2010, um processo de desapropriação da casa para musealizá-la e assim, torná-la uma casa museu do cotidiano da vida dos colonos. Nos fundos da casa pretende-se construir um laboratório de artes para as mulheres artesãs e os jovens da localidade e da cidade.

 

PARQUE MUSEU VIVO DO SÃO BENTO

Na lateral direita do Rio Iguaçu, entre a rodovia Washington Luís e a REDUC, nos fundos da sede administrativa do Museu Vivo do São Bento, havia uma lagoa e uma planície formada por vegetação de mangue, receptora das águas do rio que transbordam nos períodos de chuva e nos finais de tarde quando a maré sobe. O território referido foi considerado uma APA em 1998, com a missão de preservar o mangue, a área de transbordo natural, a lagoa e os animais que frequentemente visitam o local como as capivaras, as cobras, as garças, as tartarugas e os jacarés. Outro aspecto ainda a considerar é a movimentação do lençol freático neste pálio afogado de Duque de Caxias que coloca em risco a ocupação humana por conta de sua instabilidade. Assim, por conta do desejo de preservar esta área de transbordo das águas do Iguaçu, proteger o mangue e impedir que ocupações desordenadas instalem trabalhadores em área de risco de acidente industrial idealizou-se o Parque Museu Vivo. Basta lembrar que quando houve o vazamento do pó de alumínio toda esta área ficou coberta pelo resíduo da REDUC e que  ultimamente a REDUC vem lançando amônia no Rio Iguaçu. Na medida em que reduzimos as áreas de transbordo naturais aumentam as chances de transbordo de águas contaminadas para as residências e poços caseiros (são muitos na Baixada por conta da frequente falta de água domiciliar). Além disso, essa base aérea III é a mais poluída do Estado do Rio de Janeiro por conta da presença do polo petroquímico recomendando-se não colocar mais pessoas em situação de vulnerabilidade.

 

MEMORIAL HIDRA DE IGOASSU

Há muito o desejo de preservar a memória das lutas quilombolas no território iguaçuano se faz presente no processo de construção do museu. A logomarca do museu é uma representação da hidra de Lerna, comparada pelo governo imperial no século XIX, aos quilombos iguaçuanos. Eram vários pequenos mocambos erguidos nas margens dos rios Sarapuí, Iguaçu, Pilar, Inhomirim, Suruí, etc. Quando as milícias chegavam não encontravam ninguém, eles já haviam fugido em seus barcos pela baía da Guanabara. Na exposição “A História da Fazenda do Iguaçu” experiências quilombolas e sinais de resistência escrava foram narradas nos painéis. Em 2012, uma das moradoras da Rua Beira Rio encontrou uma máscara de tortura de escravos na beira do Rio Iguaçu, à flor da pele. Tempos depois, outro morador encontrou uma garrucha. É possível que este lugar seja um dos locais de abrigo quilombola situado nas margens do Rio Iguaçu.

Uso imaginado – Dessa forma, considerou-se importante pensar a construção do Memorial Hidra de Igoassu para homenagear, lembrar dos que lutaram contra a escravidão e ajudar a contar a história da resistência negra.